28 abril 2016

Faltou foi amor, viu?


O mais triste, na minha opinião, foi a gente não ter tido coragem para terminar tudo enquanto ainda era bonito. Enquanto a lembrança ia ser gostosa e não dolorida. Enquanto havia respeito e carinho.

As pessoas dizem "Ah, mas vocês insistiram, isso é amor". Mas não, a gente sabe que não.

O amor já estava longe faz tempo.

Foi covardia, foi comodidade, foi medo do que viria depois. Foi um misto de sentimentos, só não foi, ali no fim, amor. Foi exatamente a falta dele que fez com que ficássemos juntos.

Porque foi preciso que ficasse insuportável, foi preciso noites de choro, foi preciso que nos magoássemos um pouquinho todo dia, foi preciso a transformação do amor em dor para que percebêssemos que tinha acabado qualquer vontade de manter um laço. 

E acabou mesmo. Foi cada um para um canto, com o coração estraçalhado, com uma amargura desnecessária e toda uma história manchada. Sem culpados, porque não adianta apontar o dedo para o mais ou menos errado, se os dois assistiram calados a situação chegando a esse ponto.

Mas só hoje, após ter superado pelo menos a mágoa que sobrou de você e de mim, que eu entendi que amor não é insistir de olhos fechados, mas desistir por ter o coração aberto. Amor é liberdade, totalmente diferente de querer manter a pessoa presa a você sob qualquer circunstância ou de se sujeitar a um relacionamento fracassado por medo da solidão. Amor é querer o outro feliz , mas também, (e por que não?), querer a si mesmo feliz. 

Por isso, faltou foi amor, viu? Amor em diferentes esferas - amor ao próximo e amor-próprio. 


13 abril 2016

O que você precisa, você já tem.


Era sexta-feira, quatro horas da tarde e faltava algumas horas para a minha aula começar. Decidi me sentar em um café num shopping perto da minha faculdade.

Sempre ando com um livro na bolsa para qualquer minutinho vago que eu tenha na minha rotina instável e era um que me fazia companhia naquele dia. Eu não preciso de muita coisa na minha vida, sabe? Uma boa música tocando no meu fone de ouvido; um bom livro de romance policial e um lugar calmo para fazer uma dessas duas coisas – ou as duas ao mesmo tempo.

Eu não estava completamente satisfeita naquele dia, pois o terceiro item da minha lista não pôde ser realizado com o sucesso, mas em compensação, eu tinha um excelente capuccino na minha mesa para suprir essa falta.

Foi quando uma voz interrompeu a minha investigação ao lado de Hercule Poirot. A senhorita está esperando alguém?, o senhor me perguntou em um tom desconfiado. Aparentava ter uns sessenta anos, talvez um pouco mais. Vestia uma calça jeans bem surrada e uma blusa polo branca igualmente gasta. Lembrou-me de meu pai. Nesse instante, eu morri de medo disso ser uma cantada, porque hoje em dia, nós, mulheres, vivemos apreensivas. Respondi que não e ele, sem falar mais nada, sentou-se na cadeira a minha frente, dividindo a mesa comigo.

Sério isso?, pensei. Para não estragar o meu dia e querendo fugir dessa situação, voltei os olhos para as páginas no meu colo e tudo voltou a ficar em ordem. Eu realmente não faço a menor ideia de quanto tempo havia passado quando decidi averiguar o mundo a minha volta, só sei que bastante – o suficiente para a atendente ficar me encarando, pois eu só tinha consumido uma bebida e estava ocupando lugar. Mas o senhor continuou sentado na minha frente e nesse momento estava me fitando.

Você não estava mesmo esperando ninguém, ele me disse quase contente. E eu achei graça por ele ter duvidado de mim, qual era o problema disso? É que hoje em dia, ele completou como se respondesse a minha pergunta feita em silêncio, é muito difícil encontrar jovens que se contentem consigo mesmo. Estão sempre acompanhados, parecem ter medo de usufruir da sua própria companhia. E eu realmente fiquei surpreso por te ver assim, tão imersa nesse livro e tão longe do mundo a sua volta. Satisfeita solitariamente nesse lugar repleto de casais e grupos animados. Continue assim, sem medo e sem vergonha de ficar sozinha. O que você precisa, você já tem.

E não, não vou fazer nenhuma reflexão para fechar o texto de forma bonita e impactante. Esse moço, que eu nunca saberei o nome e não vou ver novamente, já disse tudo pra mim e por mim. 

Alguns minutos após ele ir embora, eu me dirigi à livraria do shopping para garantir que seguirei o seu conselho.